19/09/12

Marte ataca!

Marte ataca!

Por Rui Zink

Primeiro, a declaração de interesses. Sou um dos muitos portugueses que nunca viveu acima das suas possibilidades. Chateia-me por isso que me venham agora rotular de esbanjador irrealista e preguiçoso. Segundo: à tirada do "não te perguntes o que teu país pode fazer por ti, mas sim o que podes fazer pelo teu país", a balança está do meu lado. Como todos os carolas, substituí o Estado e o Governo em muitas funções públicas. (Posso enviar CV.) Terceiro: estou disposto a sacrifícios, como não havia de estar? Sou professor. Sou também escritor-português, ou seja, duplamente habituado a fornecer pro bono o meu trabalho à comunidade. 
Posto isto, os erros do Governo. Todos os governos erram, pela simples razão de que o cargo não isenta da asneira. O que já mancha a honra é o não assumir o erro. Por exemplo, quando alguém pôs em cima da mesa a nacionalização do BPN, tornando dívida pública um vício privado, teria eu tomado a decisão certa? Não sei. Decidir é difícil. Decidir sob pressão ainda pior. Mas, sabendo agora que foi um erro descomunal, pelo menos um pedido de desculpas seria bem-vindo. 
Quando um governo eleito, seja que de cor for, me pede sacrifícios, eu escuto com atenção. Um salário, dois salários? Eu escuto. Escutámos todos. O défice, a troika, a dívida, o risco de falência técnica, etc. Tudo bons – e até certo ponto verdadeiros – argumentos. O problema vem depois, quando começamos a perceber que aquilo que era temporário afinal é para ser definitivo. Que está uma revolução hiperliberal em curso. Que a crise até foi a lotaria para fazer a inversão de marcha tranquilamente. 
Nos últimos anos criou-se a pior das modas do mundo: a desmesura nos salários dos gestores. Muitos não passam de apostadores que dizem "amanhã faz sol" e, depois, querem o bónus pela proeza mas, caso chova, encolhem os ombros: "Eu não controlo o tempo, apenas o prevejo." Mal por mal, prefiro a Maya. Ainda me lembro da justificação de Vítor Constâncio para a exorbitância: "O trabalho deve ser bem pago", apenas sinistra porque só se referia à casta. Mais cómica só a líder do FMI, que não paga impostos, mandar os gregos pagar impostos. Lembro também a frase do único secretário de Estado que por cá cumpriu prisão efectiva, a propósito de uma acusação de fraude: "Nessa empresa eu era apenas administrador, só ia lá uma vez por mês." 
A máquina do Estado continua apetecível, mesmo para os que, na linha de Mitt Romney e Passos Coelho, dizem que querem menos Estado. Como podia não ser, com o dom de arrecadar impostos e exercer a única violência legítima? A diferença está no que cada um quer que o Estado faça, quais as prioridades. Ninguém é contra o Estado, a começar pelo PSD e pelo PP. Salvo erro, os milhares de cargos nomeados pelos governos dos últimos 38 anos foram preenchidos em 76,3% precisamente por elementos ligados a estes dois partidos. (Não é preciso irem conferir as contas, confesso que acabo de inventar estes números. Mas parecem rigorosos, não é? É a magia dos números, como diria o bom matemático mas triste ministro Nuno Crato.)
As pessoas estão a manifestar-se pelas mais variadas razões. Não estamos todos de acordo em muitos pontos – nem sequer, caro Paulo Portas, no essencial. (Para isso era preciso que desde logo estivéssemos de acordo sobre o que é o essencial. Dizer "Portugal" é batota.) O que acontece é que, não estando de acordo, há momentos em que um grupo, uma sociedade, entende que, sim, sobreviver exige "que rememos todos para o mesmo lado". Mas as regras têm de ser claras. Estamos a ser atacados por marcianos? Caramba, nesse cenário até Manuel Loff e Rui Ramos lutarão lado a lado contra os invasores verdes! 
Eu também vi filmes desses, meu caro Pedro Passos Coelho. O busílis é que esse bonito pacto temporário de não-agressão tem duas versões. Numa os aliados temporários dizem "Quando isto terminar mato-te" e, maravilhoso romantismo do cinema, até adivinhamos que vão ser amigos para sempre. Na outra, mais cínica, quando vão a apertar as mãos pela missão cumprida, o mais esperto aproveita para sacanear o parceiro social e ficar com tudo. Não sei se tu vais a tempo de perceber o filme. Mas um governo, gestor temporário do bem comum, tem de perceber isso. Já agora um conselho: neste esforço colectivo de "emagrecer o Estado" e "salvar Portugal", um bonito gesto de paz seria alienares em hasta pública o consultor António Borges. E anuirás que o dr. Relvas é a alma ideal para tratar do negócio.
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