29/03/14

Bebedeira curada com mesinha.

Bebedeira curada com mesinha.

Tinha aí os meus 5/6 anos, não mais, depois de uma sesta dormida no beiral, e ainda com os olhos mal abertos, olhei em redor para todos os cantos na tentativa de encontrar algo para comer.
Abri uma velha gamela e foi lá que me deparei com um frasco cheio de cerejas conservadas em água ardente, não me rogando, comi aí uma meia dúzia.
 Não mais! …
Pouco tempo depois comecei a sentir a cabeça a andar á roda e a perder o equilíbrio, com medo, corri para junto da minha avó, sem que antes tivesse dado pelo menos três a quatro tombos …
 - Madrinha, madrinha dói-me muito a cabeça, vejo tudo a andar á roda
Enquanto chamava a atenção da minha avó voltei a cair.
 - Ó meu Deus! Que te aconteceu?
Tens os olhos tão vermelhos! Exclamou ela, largando de imediato a inchada com que abria os regos para plantar o cebolo.
E correu para mim.
 - Vou já tratar disso!
Pegou-me ao colo e levou-me para casa, pousou-me, lá dos seus mais de 2 metros de altura, sentou-me na velha preguiceira, pegou numa malga encheu-a de agua, abriu uma cova nas brasas existentes na lareira, e com uma brasa presa na velha tenaz, começou a descrever umas cruzes na minha testa, enquanto fazia umas rezas, deitava a brasa na malga e repetia o ritual, fê-lo pelo menos uma dúzia de vezes.
Palavras eu não percebia uma, a não ser, bchi,…, bchi…, bchi, … bchi…
Alguns minutos decorridos comecei a sentir que as tonturas estavam a passar e voltei ao normal.
Nunca fui de acreditar em determinadas coisas, mas sempre convém recordar o que dizia a minha santa avó:
- Deus deixou de tudo na terra o mal e o bem.
 Penso que a minha avó morreu á mais de 25 anos e nunca descobriu que o me corou foi uma grande bebedeira de bagaço.

Rodrigo Oliveira
Amarante
2007



Nota.
Hoje com 43 anos de idade e já com algumas bebedeiras curadas com o tempo, não tenho duvida que a minha avó me corou a referida bebedeira com a sua crença, reza mesinha ou ambas, mas lá que passou, passou.

O beiral é um anexo da casa onde se guardavam as ferramentas agrícolas, as sementes e outras tralhas.
A gamela é uma caixa e forma triangular com pernas e uma tampa toda ela feita em madeira, onde se amassava o pão no fim-de-semana e servia para guardar o pão durante a semana ate nova cosedura.

 Guardava-se também na gamela por exemplo as sardinhas compradas de manha ate á hora de as cozinhar ate mesmo o resto de comida, eram guardados ai, em suma era o frigorífico da época. 
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